Os impactos de uma térmica suja

Publicado no Jornal do Commercio, em 15.09.2011. PorFelipe Lima, da Editoria de Economia. Em um único dia de funcionamento, a bilionária Usina Termelétrica Suape III, anunciada com pompa na última terça-feira pelo governo do Estado e a Star Energy, do Grupo Bertin, vai jogar no céu pernambucano 24 mil toneladas (t) de dióxido de carbono (CO2). Se funcionasse por um ano, sem parar, seriam 8 milhões de t de um dos gases causadores do efeito estufa. Ou o equivalente a um terço do que todo o setor elétrico do Brasil polui hoje. Mais que os R$ 2 bilhões em investimentos e os 500 empregos diretos que serão criados pelo empreendimento, foram esses os números que repercutiram ontem. E que suscitaram a pergunta: o povo pernambucano deve comemorar a chegada da maior usina térmica do mundo? A estimativa de emissão de CO2 da Suape III foi realizada pelo professor de engenharia elétrica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Heitor Scalambrini, e pelo coordenador da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo. Os dois chegaram ao mesmo resultado. O cálculo levou em conta dados da Agência Internacional de Energia, em que para cada 0,96 metro cúbico (m³) de óleo combustível consumido, 3,34 t de carbono são lançadas na atmosfera. Pernambuco ganhou a usina mais suja do mundo. E todos bateram palma. Os pernambucanos estão anestesiados por três expressões: progresso, geração de empregos e melhoria de renda. Mas é possível obter tudo isso de maneira mais decente do ponto de vista ambiental, opinou Scalambrini. Para efeitos de comparação, a emissão de mil gramas de CO2 por kilowatt/hora (kw/h) gerado por uma térmica como essa representa 100 vezes mais que a emissão de toda a cadeia produtiva de energia eólica, incluindo desde o processo de produção das torres, que usa componentes feitos de aço, passando pelo transporte das pás por caminhões abastecidos de óleo diesel, até o funcionamento dos empreendimentos, complementou Baitelo. O diretor do Instituto Ilumina, organização não-governamental (ONG) que atua no setor elétrico, João Paulo Aguiar, acrescentou outro ponto negativo à discussão. A construção de empreendimentos desse perfil é fruto da escolha catastrófica de transformar energia em uma commodity. Isso tornou a energia brasileira numa das mais caras do mundo. Um contrassenso em um País que possui a dádiva da geração hidrelétrica. E para garantir a segurança no abastecimento de Suape, não são necessários investimentos em uma térmica, mas melhorias nas linhas de transmissão, resumiu. Professor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Schaeffer, trouxe a tona uma questão preocupante. Seria impensável a construção de uma térmica de óleo combustível em São Paulo ou no Paraná. As empresas buscam justamente os Estados onde a legislação ambiental é mais frouxa. A ideia geral defendida por acadêmicos, ambientalistas e especialista...

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