Eles chegaram antes de Suape

Publicado em 23.01.2011, no Jornal do Commercio. Texto de Adriana Guarda ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ) O JC mostra hoje a história de quatro agricultores que já viviam nas terras de Suape antes mesmo do complexo ser criado e hoje tentam receber uma indenização digna para desocupar as suas casas. O agricultor Marciano da Silva, de 90 anos, passou mal numa audiência da Justiça para discutir posse de terra em Suape. O mal-estar aconteceu durante a leitura da petição inicial do processo. O texto dizia: ação de reintegração de posse contra o invasor de cinco hectares de terra (...) no Engenho Tiriri, conhecido na região como Marciano. Depois de tomar água e se recompor, ele emudeceu a todos com sua resposta. Não sou invasor, nem bandido. Nem atendo por alcunha. Meu nome é Marciano Justo da Silva e sou morador de Tiriri há 60 anos. O sentimento de indignação dele é compartilhado por outros posseiros da velha-guarda, há quatro gerações vivendo nas terras que hoje pertencem ao Complexo de Suape. Todos temem o futuro e repetem a mesma pergunta: pra onde vou quando deixar meu sítio? Os agricultores são associados à Cooperativa Agrícola de Tiriri, fundada em junho de 1963. A comunidade é uma das mais tradicionais do Cabo de Santo Agostinho e protagonizou muitas das lutas camponesas em Pernambuco. Quando surgiu, a cooperativa comprou glebas dos engenhos Jasmim, Setúbal, Serraria, Algodoais, Massangana, Tiriri, Utinga de Cima, Tabatinga, Buranhém e Sebastopol, todos localizados no Cabo. As terras foram divididas em parcelas de até dez hectares e cedidas aos associados para cultivo de cana-de-açúcar (60% da área) e lavoura de subsistência (40%). A cooperativa intermediava a venda da produção para usinas e destilarias da região. A época era de tensão no campo. Na área rural, agricultores e usineiros viviam em guerra. Foi preciso o então governador Miguel Arraes intervir, criando o chamado Acordo do Campo. Com a medida, os conflitos que antes paravam na polícia, passaram a ser resolvidos pela Justiça. Além desse acordo, também foi criado o Estatuto do Trabalhador Rural, garantindo benefícios para a categoria. Aqueles tempos também eram de efervescência na política. O padre Antonio Melo, que durante 16 anos manteve o controle político da Cooperativa de Tiriri, chegou a se candidatar a governador de Pernambuco pelo PTB, em 1982, mas perdeu para Roberto Magalhães. Padre Melo era muito sabido. Sabido não, que isso não é defeito. Ele era desonesto mesmo. Fazia o agricultor analfabeto carimbar o polegar em documentos que a gente nem sabia o que era, conta José Manoel dos Santos. Também foi em 1982 que a cooperativa vendeu suas terras para a empresa Suape (fundada em 1978). De lá para cá, a incerteza passou a fazer parte da vida dos posseiros. Pelo acordo feito com Suape, quando a empresa precisasse dos terrenos, os posseiros seriam indenizados e teriam que sair das terras. Sabemos que vamos sair daqui. E não estamos fazendo resistência. O problema é o que estão quer...

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