O Meio Ambiente e a Hipertensão

Leslie Tavares * Meu pai, após o segundo infarto, aos seus sessenta e poucos anos, resolveu definitivamente adotar uma dieta disciplinada para cuidar de sua hipertensão. Viveu mais 21 anos e teve uma morte tranqüila. Deu-se ao luxo de me esperar chegar ao quarto do hospital, mesmo com atrasos no vôo. Outro dia, ao ver uma das cenas mais corriqueiras de nossas cidades, alguém atirando uma garrafinha de água no chão, me lembrei dele. Não porque certamente ficaria indignado, mas por causa de sua doença. A hipertensão leva ao infarto, à diabete, disfunção renal e até a mesmo à impotência, dentre uma infinidade de outras conseqüências. Mesmo assim, quem mais freqüenta as churrascarias são justamente os hipertensos. Mesmo sabendo da nocividade da doença como resistir a uma picanha, a uma costelinha de porco ou àquela cervejinha. E os exercícios físicos então? A questão ambiental é muito parecida com a hipertensão, só que o nome da doença, no caso, chama-se degradação ambiental. Sabemos dos seus malefícios, mas pouco nos propomos a fazer pra evitá-los. Afinal, quem se preocupa se o sanitário acaba dando no rio, se a ripa do telhado veio ilegalmente da Amazônia, ou se as tartarugas marinhas comem sacos de lixo. Todas essas pequenas coisas diariamente contribuem para um meio ambiente cada vez mais doente. É uma doença silenciosa. Mas isso são apenas salgadinhos de festa quando nos deparamos com problemas maiores. Alguém já se perguntou o que vai acontecer com toda aquela água de Pirapama depois de usada? Ou ainda, quantos prédios em Piedade poderão cair, depois que Suape desmatar mais 8% dos mangues de Pernambuco?(Pra quem não sabe, o próprio MAI, que é o programa de monitoramento costeiro do Governo do Estado, reconhece o que todo meio acadêmico já sabe: que a destruição e aterramento de mangues aumentam a erosão costeira). E o pior de todos: a Reforma do Código Florestal, um verdadeiro pé de porco na feijoada do hipertenso. Vale lembrar então que a hipertensão é uma das doenças que mais matam atualmente. Zerbini, o pioneiro das cirurgias cardíacas no Brasil, quando defendia na década de 50 o projeto do Instituto do Coração em São Paulo, o famoso INCOR, foi ridicularizado. Naquela época em que se morria mais de verminose, falar em hipertensão era piada. O médico, porém, não estava errado. Coincidentemente, durante as chuvas de São Paulo e no Rio, as enxurradas mataram mais que a violência, incluindo os acidentes de carro, sem contar os gigantescos prejuízos materiais. No Nordeste tivemos as vítimas da falta de proteção florestal dos rios, da ocupação desordenada das cidades e das chuvas vindas do oceano aquecido pelas emissões de Carbono. Uma série de descasos ambientais. No mundo todo contabilizamos os mortos por desastres ambientais, um fenômeno freqüente desta década. Para se livrar da hipertensão meu pai teve de se disciplinar e fazer rigorosa dieta. Graças a essa mudança de comportamento pôde desfrutar deste mundo mais duas décadas. Nossa so...

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