Passado de ilha descoberto

Publicado em 11.07.2010, no Jornal do Commercio. Ao chegar à parte mais alta da Ilha de Tatuoca, no Grande Recife, é difícil tirar os olhos da paisagem de mar e mangue pontuada pelas indústrias do Complexo Portuário de Suape. Para um grupo de pesquisadores, no entanto, a riqueza do lugar está bem abaixo dos pés, e não no horizonte. São achados arqueológicos, como pontas de lança e cerâmicas usadas, segundo a Universidade Federal Rural de Pernambuco, por populações pré-históricas. O material, coletado ao longo dos últimos três meses, pertenceu a índios tupis que ocuparam o local até a chegada dos colonizadores. Os machados de pedra são bem característicos, destaca a coordenadora do Núcleo de Ensino e Pesquisas Arqueológicas da UFRPE e coordenadora em exercício da pós-graduação em História Social da Cultura Regional da universidade, Ana Nascimento. Mas essas pontas de lança e os raspadores parecem muito diferentes. Só encontramos coisa parecida no Rio Grande do Norte. A pesquisadora se refere a uma estrutura triangular, em óxido de ferro, provavelmente usada 500 anos atrás pelos índios nas batalhas contra os portugueses e, mais tarde, os holandeses. Numa delas, um grupo de caetés resistiu a 2.500 brancos, segundo os registros históricos, diz o graduando em sociologia Marcos Miliano, que pretende fazer mestrado sobre os achados arqueológicos da ilha, com 7.300 metros quadrados. Num reconhecimento da área semana passada, Ana, Marcos e mais dois alunos de história encontraram, ainda, muitos fragmentos de faiança, um tipo de louça portuguesa. Certamente, estamos diante de um sítio arqueológico multicomponencial, ou seja, que teve sucessivas ocupações, de pré-históricas a históricas, diz a pesquisadora. As peças se concentram nos topos e encostas dos morros de Tatuoca, que significa ilha dos tatus. O mais alto deles, o Morro do Damião, está a 23 metros. Aqui tinha mais tatu que formiga, brinca o pescador José Damião Ferreira, 51 anos. Conhecido como seu Béa, ele nasceu na ilha, ocupada por 51 famílias. Foi seu Béa que contou sobre as peças antigas. Tem até um lugar onde achamos umas ossadas. Os pesquisadores acreditam que sejam esqueletos de índios, de brancos mortos em combate ou ainda de escravos mortos após o desembarque de navios negreiros que usavam Suape como entreposto. Ana, que já mapeou 31 sítios arqueológicos em Suape, na área que será ocupada pela refinaria Abreu e Lima, mas nenhum em Tatuoca, defende a implantação de um programa de arqueologia e história no complexo industrial e portuário. É preciso mapear os locais que devem ser preservados e os em que se pode construir após salvamento arqueológico. Em Tatuoca, a pesquisadora pretende, após apresentar projeto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), fazer a prospecção da área. Em seguida faremos umas sondagens para identificar nos locais a profundidade que devemos escavar. Ela acredita que, uma vez conseguido financiamento para a pesquisa, o trabalho na ilh...

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